sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Curando Almas,uma Arte Esquecida!

No desafio de liderar uma igreja, algo de essencial foi ignorado


  
Pode haver uma reforma em andamento na maneira como os pastores realizam o seu trabalho. Ela pode revelar-se tão significativa quanto a reforma teológica do século XVI. Espero que sim. Os sinais não param de se acumular.

Os reformadores recuperaram a doutrina bíblica da justificação pela fé. A proclamação – fresca, pessoal e direta – do evangelho, através dos séculos, tornou-se uma imenso e pesada engrenagem: mecanismos teológicos elaboradamente planejados, roldanas, niveladores produzindo ruído com seu atrito para, no final, resultar em algo completamente trivial. Os reformadores recuperaram a paixão pessoal e a clareza tão evidentes nas Escrituras. Esta redescoberta do envolvimento íntimo resultou em frescor e vigor.

A reforma vocacional do nosso próprio tempo (caso se trate disso) é uma redescoberta do trabalho pastoral de curar almas. A frase soa antiga, o que ela é de fato. Mas não obsoleta. Ela designa, melhor do que qualquer outra expressão de que eu tenha conhecimento, por um lado o combate incessante contra o pecado e a tristeza, e, por outro, o cultivo dedicado da graça e da fé ao qual os melhores pastores têm se consagrado a cada geração. A sonoridade esquisita da frase pode até apresentar uma vantagem: chamar a atenção para o fato de quão distantes as rotinas pastorais da atualidade se tornaram.

Eu não sou o único pastor que descobriu esta antiga identidade. Mais e mais pastores estão abraçando esta forma de trabalho pastoral e considerando-a um caminho legítimo. Não somos muitos e não somos maioria. E tampouco somos uma minoria destacada. Mas, um a um, os pastores estão rejeitando o pedido de trabalho que lhes foi entregue e preferindo este novo – ou, como parece ser o caso, o antigo tem sido usado durante quase todos os séculos Cristãos.

Não é só fantasia pensar numa época em que os números alcançarão uma massa crítica e produzirão uma reforma vocacional dentre os pastores. Mesmo em caso negativo, me parece a coisa mais significativa e criativa acontecendo no ministério pastoral dos dias de hoje.

O trabalho da semana

O que os pastores fazem no domingo é diferente do que eles fazem entre os domingos. Aquilo que fazemos nos domingos não mudou muito ao longo dos séculos: proclamar o evangelho, ensinar as Escrituras, celebrar os sacramentos, oferecer preces. O trabalho entre um domingo e outro, por sua vez, mudou radicalmente, e não no sentido de um progresso, mas de uma deserção.

Até mais ou menos um século atrás, o que os pastores faziam entre os domingos consistia em uma parte daquilo que eles faziam aos domingos. O contexto mudou: ao invés de uma congregação reunida, o pastor se reunia com uma pessoa ou com um pequeno grupo, ou fazia seus estudos e orações até mesmo sozinho. A maneira mudou: no lugar da proclamação, era a conversa. Mas o trabalho era o mesmo: descobrir o significado das Escrituras, desenvolver uma vida de oração com o objetivo de orientar o crescimento em direção à maturidade.

Este é o trabalho pastoral que foi historicamente definido como a cura das almas. O sentido básico de "cura" em latim é "cuidado". A alma é a essência da personalidade humana. Neste sentido, a cura das almas consiste, pois, no cuidado orientado pelas Escrituras e modelado pela oração, e voltado a indivíduos ou grupos, seja em contextos sagrados ou profanos. Trata-se, pois, da determinação de se trabalhar o centro, de se concentrar sobre o essencial.

O trabalho entre domingos dos pastores norte-americanos neste século, entretanto, é administrar uma igreja. Ouvi esta frase pela primeira vez durante minha ordenação. Após 25 anos, ainda consigo lembrar da impressão desagradável que ela deixou em mim.

Eu viajava em companhia de um pastor pelo qual tinha muito respeito. Eu estava cheio de entusiasmo e expectativas, antecipando minha vida pastoral. Minha convicção interior da chamada ao pastoreio estava prestes a ser confirmada por outras pessoas. O que Deus desejava que eu fizesse, o que eu queria fazer e o que os outros queriam que eu fizesse estavam em ponto de convergência. A partir de uma leitura razoavelmente extensa de pastores e padres do passado, eu me impressionava com o fato de que a vida pastoral tinha como preocupação primeira o desenvolvimento de uma vida de oração entre as pessoas. Liderar a devoção, pregar o evangelho e ensinar as Escrituras aos domingos desenvolveria, nos seis dias seguintes, a representação da vida de Cristo durante o trânsito humano do dia-a-dia.

Enquanto minha mente estava repleta destes pensamentos, meu amigo pastor e eu paramos em um posto de gasolina. Ele, uma pessoa gregária, discutiu com o frentista. Algo relacionado ao troco provocou a discussão.

"O que você faz?"

"Eu lidero uma igreja".

Nenhuma resposta teria me surpreendido mais. Eu sabia, claro, que a vida pastoral incluía responsabilidades institucionais, mas nunca me ocorrera que eu viria a ser definido por tais responsabilidades. Mas no momento em que fui ordenado, descobri que eu era definido tanto pelos pastores e executivos ao redor quanto pelos paroquianos em volta de mim. A primeira tarefa submetida a mim omitia completamente a oração.

Enquanto minha identidade pastoral estava sendo moldada por Gregório e Bernardo, Lutero e Calvino, Richard Baxter de Kidderminster e Nicolau Ferrara de Little Gidding, George Herbert e Jonathan Edwards, John Henry Newman e Alexander Whyte, Phillips Brooks e George MacDonald, o trabalho pastoral havia sido quase completamente secularizado (exceto os domingos). Eu não gostava disso e decidira, após um período de confusão, em que me encontrava desorientado, que ser um médico de almas era mais importante do que administrar uma igreja, e que eu seria orientado em minha vocação pastoral pelos sábios predecessores e não pelos meus contemporâneos. Felizmente, encontrei aliados ao longo do caminho e a prontidão dos meus paroquianos para me ajudar a aperfeiçoar minhas tarefas pastorais.

Cumpre esclarecer que a cura das almas não é uma forma especializada de ministério (análoga, por exemplo, ao capelão de hospital ou ao conselheiro pastoral), mas a atividade pastoral por excelência. Não se trata de um estreitamento da atividade pastoral em direção aos seus aspectos devocionais, mas um modo de vida que recorre às tarefas, encontros e situações do dia-a-dia como matéria-prima do ensinamento da oração, do desenvolvimento da fé e da preparação para a morte. Curar almas é um termo que filtra aquilo que é introduzido pela cultura secular. Também é um termo que nos identifica aos nossos ancestrais e aos nossos colegas de ministério, leigos e clérigos, que estão convencidos de que uma vida de oração é o tecido de ligação entre a proclamação do dia santo e o discipulado do dia-a-dia.

Um aviso: eu costumo distinguir a cura de almas da tarefa de administrar uma igreja, mas não quero ser mal compreendido. Não me orgulho de liderar uma igreja, assim como não desprezo a importância da tarefa. Eu mesmo administro uma há mais de 20 anos. Tento fazer o meu melhor.

Eu encaro a tarefa da mesma maneira com que cuido da casa junto à minha esposa. Existem muitas coisas que fazemos cotidianamente, muitas vezes (mas nem sempre) com prazer. Mas nós não administramos uma casa; o que fazemos é construir um lar, desenvolver um matrimônio, educar as crianças, praticar a hospitalidade, exercitar uma vida de trabalho e lazer. É à redução da vida pastoral a tarefas institucionais que eu me oponho, não às tarefas em si, que eu orgulhosamente compartilho com outras pessoas na igreja.

Não será o caso, obviamente, de desafiar teimosamente as expectativas das pessoas e levar adiante de maneira excêntrica o labor pastoral, como um cura do século XVII, ainda que aquele cura pudesse ser de longe mais sensato do que o clérigo atual. O resgate deste trabalho pastoral essencial entre domingos deve ser empreendido em tensão com as expectativas secularizadas da nossa época: deve haver negociação, discussão, experimentação, confronto, adaptação. Os pastores que se dedicam à direção de almas devem realizar a tarefa no meio das pessoas que esperam que eles cuidem de uma igreja. Numa tensão determinada e afável com aqueles que nos prescrevem irrefletidamente orientações de tarefas, podemos, estou convencido disso, recuperar nosso trabalho próprio.

Não obstante, os pastores que reivindicam o vasto território da alma como sua responsabilidade preeminente, não o conseguirão indo fazer um treinamento profissional. Temos de aprender na prática, em nossa própria profissão, pois não somos apenas nós mesmos, mas também o nosso povo que estamos de-secularizando. A tarefa da recuperação vocacional é uma reforma tão teológica quanto interminável. Os detalhes variam conforme o pastor e o pároco, mas existem três áreas de contraste entre cuidar de uma igreja e a cura de almas com a qual estamos familiarizados: iniciativa, linguagem e problemas.

Iniciativa

Liderando uma igreja, eu tomo a iniciativa. Eu me adianto à função. Tomo responsabilidade pela motivação e pelo recrutamento, por mostrar o caminho, por fazer as coisas acontecerem. Caso contrário, as coisas soçobram. Tenho consciência da tendência à apatia, da suscetibilidade humana à indolência, e eu uso minha posição de liderança para evitar isso.

Em contraste, a cura de almas é uma consciência cultivada de que Deus já tomou a iniciativa. A doutrina tradicional que define esta verdade é a previdência: Deus sempre toma a iniciativa. Ele faz as coisas acontecerem. Foi e sempre dele a primeira palavra. A previdência é a convicção de que Deus trabalha diligente, estratégica e redentoramente, mesmo antes de eu aparecer em cena, mesmo antes de eu tomar consciência de que havia algo para eu fazer aqui.

A cura de almas não é indiferente às realidades da letargia humana, ingênua em relação à recalcitrância congregacional, ou desatenta à teimosia neurótica. Mas existe uma convicção determinada e disciplinada de que tudo (eu quero dizer tudo mesmo) é uma resposta à primeira palavra de Deus, ao seu ato inicial. Nós aprendemos a ficar atentos à ação divina já em andamento, de modo que o Verbo outrora inaudito de Deus seja ouvido, e o seu ato ignorado, percebido.

Perguntas relacionadas ao cuidar de uma igreja: O que faremos? Como podemos fazer as coisas funcionarem?

Perguntas relacionadas ao curar as almas: O que Deus tem feito aqui? Quais traços de graça posso discernir nesta vida? Que história de amor eu posso ler neste grupo? O que Deus colocou em movimento de modo que eu possa dar continuidade?

Nós nos equivocamos e distorcemos a realidade quando tomamos a nós mesmos como ponto de partida e nossa situação atual como o critério fundamental. Ao invés de confrontar a condição humana decaída e tomar a iniciativa de recuperá-la sem perda de tempo, nós nos voltamos à previdência divina e descobrimos como podemos fazer as coisas acontecerem no momento certo, do jeito certo.

A cura de almas exige tempo para que se leia os minutes da última reunião, na qual eu provavelmente não estava presente. Quando me detenho em uma conversa, quando me reúno com um comitê ou quando visito um lar, estou conduzindo algo que já está em processo há muito, muito tempo. Deus sempre foi e sempre será a realidade central deste processo. A convicção bíblica é de que Deus "há muito se antecipou à minha alma" (God is "long beforehand with my soul.") Deus já tomou a iniciativa. Como alguém que chega atrasado para uma reunião, eu adentro uma situação complexa em que Deus já proferiu palavras decisivas e já tomou decisões sumamente importantes. Meu trabalho não é necessariamente anunciar isto, mas descobrir o que ele está fazendo e viver apropriadamente de acordo com isso.

Linguagem

Na igreja, eu uso uma linguagem que é descritiva e motivacional. Eu quero que as pessoas fiquem informadas para não haver mal-entendidos. E quero que as pessoas estejam motivadas para fazer as coisas acontecerem. Mas no tocante à cura das almas eu estou muito mais interessado em saber quem elas são e quem elas estão se tornando em Cristo, do que estou interessado no que elas sabem e no que estão fazendo. Neste quesito eu logo percebo que nem a linguagem descritiva nem a linguagem motivacional ajudam muito.

A linguagem descritiva é uma linguagem "sobre", ela nomeia o que existe; orienta-nos na realidade. Ela torna possível encontrarmos nosso caminho em meio a labirintos. Nossas escolas se especializam em nos ensinar esta linguagem. A linguagem motivacional é uma linguagem "para" – ela recorre à palavra para fazer as coisas acontecerem. Comandos são transmitidos, promessas feitas, solicitações encaminhadas. Tais palavras fazem com que as pessoas façam coisas que não fariam por iniciativa própria. A indústria da propaganda é o exemplo mais hábil desta arte lingüística.

Por mais indispensáveis que sejam estas formas de linguagem, existe outra, tão essencial à humanidade quanto é fundamental para a vida da fé. Trata-se da linguagem pessoal. Através dela, recorremos às palavras para nos expressar, para conversar, para nos relacionarmos. Esta é uma linguagem "para" e "com". O amor é oferecido e recebido, idéias são desenvolvidas, sentimentos são articulados, silêncios são honrados. É a linguagem que utilizam, espontaneamente, as crianças, os amantes, os poetas e os fiéis que rezam. Ela está expressivamente ausente quando tomamos conta de uma igreja – há tanto a se dizer e a se fazer que não sobra tempo nem ocasião para que se faça presente.

Curar almas é uma decisão de se trabalhar o coração das coisas, onde somos nós mesmos da maneira mais plena e onde nossos relacionamentos através da fé e da intimidade são desenvolvidos. A linguagem primária deve ser, portanto, "para" e "com", a linguagem pessoal do amor e da oração. A vocação pastoral não se dá primeiramente numa escola onde os assuntos são ensinados, nem em quartéis onde forças de ataque são empregadas contra o mal ("nor in a barracks where assault forces are briefed for attacks on evil"), mas dentro da família – o lugar onde o amor é ensinado, onde se dá o nascimento, onde a intimidade é aprofundada. A tarefa pastoral consiste em adotar a linguagem apropriada para este aspecto fundamental da humanidade – não uma linguagem que descreve, nem que motiva, mas uma linguagem espontânea: queixas e exclamações, confissões e apreciações, palavras que o coração pronuncia.

Nós temos, obviamente, muito o que ensinar e muito o que fazer, mas nossa tarefa principal é ser. A linguagem fundamental da cura de almas, portanto, é a conversa e a oração. Ser pastor implica aprender a utilizar uma linguagem em que a singularidade pessoal e a santidade individual é reconhecida e respeitada. Trata-se de uma linguagem calma, sem pressa e sem pressão, tranqüila – a linguagem vagarosa dos amigos e dos amantes, que é também a linguagem da oração.

Problemas

Enquanto cuido de uma igreja, tenho que resolver problemas. Sempre que duas ou mais pessoas se juntam, os problemas aparecem. Os egos são feridos, os procedimentos se complicam, os acordos tornam-se confusos, os planos são distorcidos, os temperamentos se acirram. Existem problemas de política interna, conjugais, profissionais, familiares, emocionais. Alguém tem de interpretar, explicar, desenvolver novos planos e melhores procedimentos, organizar e administrar. A maioria dos pastores gosta de fazer isso, e eu me incluo entre eles. É gratificante ajudar a tornar macios os lugares pedregosos.

A dificuldade consiste em que os problemas surgem num fluxo tão constante que a solução acaba se tornando um trabalho de tempo integral. Por ser útil e pelo pastor geralmente conseguir fazer isso bem, não conseguimos enxergar que a vocação pastoral foi subvertida. Gabriel Marcel escreveu que a vida não é tanto um problema a ser resolvido quanto um mistério a ser explorado. Esta é certamente a mensagem bíblica: a vida não é algo que podemos martelar e moldar, deixando exatamente do jeito que queremos; ela é uma dádiva inexplicável. Estamos imersos em mistérios: o amor inacreditável, o mal enganador, a Criação, a Cruz, a Graça de Deus, Deus.

A mente secularizada se aterroriza mediante os mistérios. Então, ela faz listas, rotula as pessoas, distribui funções, resolve problemas. Mas uma vida "resolvida" é uma vida reduzida. Tais indivíduos engravatados jamais correm grandes riscos ou apresentam um discurso convincente sobre o amor. Eles negam ou ignoram os mistérios e reduzem a existência humana a algo passível de ser administrado, controlado, consertado. Vivemos um culto aos especialistas que explicam e resolvem. O vasto aparato tecnológico que nos rodeia dá a impressão de que para tudo existe uma ferramenta, que só precisamos ter condições financeiras de adquirir. Os pastores que desempenham o papel de tecnólogos espirituais têm dificuldades em evitar que este papel absorva outras coisas, já que há muitas coisas que precisam e podem, de fato, ser consertadas.

Mas "existem coisas", escreveu Marianne Moore, "cuja importância vai além dessas ninharias". O antigo guia de almas garante a prioridade do "além" em relação às "ninharias" do aquém. Quem está disponível para este trabalho senão os pastores? Alguns poetas, talvez; e as crianças, sempre. Mas as crianças não são bons guias, e a maioria dos nossos poetas perderam o interesse em Deus. Isto faz dos pastores os guias em direção aos mistérios. Vivemos, século após século, vivemos com a nossa consciência, nossas paixões, nossos vizinhos, e nosso Deus. Qualquer visão estreitada dos nossos relacionamentos não corresponderá à complexidade da nossa realidade humana.

Se os pastores se tornam se comprometem a tratar cada criança como um problema a ser decifrado, cada esposa como um problema que exige reconciliação e todo conflito de vontades no coro ou no comitê como um problema a ser julgado, assim nós abdicamos da parte mais importante do nosso trabalho, a saber, orientar a devoção em meio ao tráfego cotidiano, descobrir a presença da Cruz nos paradoxos e no caos de entre os domingos, chamar a atenção para o "esplendor contido no ordinário" e, acima de tudo, ensinar uma vida de oração aos nossos amigos e companheiros de peregrinação.




 rci/rv

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