sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Pastor e o Mundo

Em João 15.16 Jesus diz: "Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros, e vos designei para que vades e deis frutos".

Qualquer que seja a interpretação dada à palavra "fruto", creio que nossa vida deve apresentar o fruto de pessoas conquistadas para o reino de Deus. Como instrumentos de Deus, temos a responsabilidade de produzir frutos de pessoas salvas pela graça de Deus. Fomos, pois, designados por Deus para darmos fruto.

Levar pessoas ao encontro pessoal com o Senhor Jesus faz parte do processo de fazer discípulos de Cristo. "Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus", João 3.3.

1. A crítica feita aos pastores.

No salmo 73.5 temos um resumo da crítica recebida pelos pastores: "Eles não partilham das canseiras dos mortais, nem são afligidos como os outros homens". Há muitas pessoas que dizem o seguinte a respeito dos pastores: "eles vivem no mundo da lua, fora da realidade. Eles não têm que trabalhar para ganhar o pão como as outras pessoas". Daí vem o conceito de que pastor não trabalha. Você já recebeu a pergunta: "Você é só pastor, ou trabalha também?" O pastorado não é considerado trabalho. Para muitos, o pastor vai à igreja domingo pela manhã e à noite e na 4a feira, e essa é toda a sua atividade. Se ele sai à tarde para fazer visitas, as pessoas perguntam: "Está passeando pastor?" Se sai para uma conferência, dá duro, levanta cedo, aconselha, ora, prega, evangeliza, quando volta para a igreja o povo pergunta: "Como foi o passeio pastor?" "Conheceu bem a cidade?" Comunicamos a idéia de que nosso trabalho não é importante, relevante.

Não sei de onde surgiu essa idéia, mas acho que tudo começou com os próprios pastores. Parece que os pastores comunicaram essa idéia falsa. Quando o pastor sobe ao púlpito para pregar, ele muda, se transforma, passa a ser uma outra pessoa. Muitos mudam a entonação da voz, para ficarem mais "espirituais". Procuram dessa maneira impressionar as pessoas com sua "santidade".

O próprio vestuário do pastor é diferente. Há pastores que até fora do púlpito nunca tiram a gravata. Conheci um pastor que se orgulhava de nunca ter sido visto por alguém sem a gravata.

Os pastores são os maiores responsáveis pela idéia da falsa divisão entre secular e espiritual. As igrejas evangélicas estão divididas entre dois mundos: o espiritual ou sacro e o secular ou profano. O mundo chamado espiritual é na realidade o mundo religioso. É o mundo do ritual, do formalismo, das becas, dos ornamentos, da mudança do tom de voz, etc. O chamado mundo secular é dos negócios, do trabalho, da vida no lar, na escola, no campo de futebol. Onde existe tal divisão na Bíblia? Em 1 Coríntios 10.31, Paulo nos diz o seguinte: "Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra cousa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus". Essa divisão, entretanto, é a que mais tem contribuído para a formação de hipócritas. Aqui se aplica muito bem o ditado: "Religião é religião, negócio é negócio". Isto me faz lembrar certo pastor, que ao ser cobrado de uma dívida disse: "não confunda as coisas: minha vida eclesiástica nada tem a ver com meus negócios". É natural, pois, que as pessoas separem as atividades da vida em seculares e sagradas. Elas têm bons mestres. Tudo o que se ouve no domingo é bonito, mas não se aplica à vida semanal. O domingo é um dia especial. Lembro-me que no início do meu ministério, terminava o culto no domingo à noite dizendo: "meus irmãos, terminamos aqui nossas atividades espirituais". E daí? Começariam as carnais? Era isso que ficava subentendido. Mas, a frase era bonita e eu a usava. Aprendi com alguém e na ocasião eu nem sabia que isso não era bíblico.

Os pastores também são os superespirituais. Eles geralmente procuram dar a idéia que tudo vai bem. Mas, às vezes, nem tudo vai bem. Há discussões e brigas em casa. As finanças vão mal porque ganham pouco ou por outras razões. Os filhos estão revoltados e por aí afora.

Com tantas coisas assim não há dúvida de que o pastor deva mesmo ser considerado um extraterrestre, um que não partilha das canseiras dos mortais, que vive num mundo diferente.

Mas todos sabem que o pastor é igual a todo mundo. Dentro da igreja ele tem a função de equipar os santos para o ministério (Efésios 4.11ss). Mas ele tem esposa, filhos, sogra, e enfrenta as mesmas dificuldades que qualquer outro homem.

A primeira coisa a ser feita para que o pastor possa se relacionar com as pessoas deste mundo é quebrar essas barreiras. Precisamos descer do alto da pirâmide.

2. O pastor como modelo de evangelização.

Pedro disse que o pastor deve ser o modelo do rebanho - 1 Pedro 5.23. Modelo aqui se refere à conduta; padrão de vida e a área de evangelização e discipulado estão incluídos. Olhando para nós, as pessoas do nosso rebanho poderão ver como nos aproximamos dos outros, como evangelizamos, o que falamos, como respondemos às perguntas. Tendo um modelo para seguir as pessoas aprenderão muito mais facilmente. Poderemos pregar uma centena de sermões, elaborarmos um plano de evangelização, mas o que as pessoas precisam é de um modelo para ser seguido. Robert E. Coleman falando sobre este assunto disse: "Os homens procuram demonstração e não explicação. Aqueles dentre nós que buscam treinar homens, devem estar preparados para deixá-los que os sigam, da mesma maneira que nós seguimos a Cristo. Nós somos o mostruário. Dessa maneira, nossos aprendizes farão aquelas coisas que ouvem e vêem em nós". (O Plano Mestre de Evangelismo, pg. 89). Alguém dividiu a tarefa de evangelização em quatro fases.

A. Presença. Por presença no mundo entendemos a qualidade de vida que temos. A evangelização não deve ser uma atividade extra, como geralmente acontece. "Nesta semana vamos atingir toda a cidade com o evangelho". Não deve ser assim. A evangelização deve ocorrer normalmente em nossa vida. Se precisamos fazer um reforço extra para evangelizar, já está tudo errado. Quando não estamos vivendo a vida cristã, precisamos de um especialista para fazer o trabalho que cada um de nós deveria estar fazendo. Vemos em Atos que Deus ia acrescentando dia a dia as pessoas que iam sendo salvas. A qualidade de vida do povo e da igreja atraía a atenção das pessoas. Porque invertemos as coisas, precisamos de um reforço extra para evangelizar. Mas, quando há um estilo de vida diferente, que vale a pena, as pessoas vão se interessar por Jesus. Elas vão querer saber por que você vive como vive, qual é a razão, o que o motiva a agir de modo diferente. É a qualidade de vida que temos que vai impressionar as pessoas. Se não há uma vida que demonstre a presença de Jesus, não há autoridade para pregar.

B. Convivência. Precisamos deixar que as pessoas nos conheçam como somos, porque há muitas barreiras contra a Bíblia, contra o evangelho e contra a igreja. Só quando as pessoas nos conhecem é que as barreiras podem ser quebradas. Só através da convivência isso será possível. Quando convivemos com as pessoas e abrimos nossas vidas elas mesmas vão começar a perguntar como é a vida com Deus. É normal as pessoas quererem conhecer o Deus que transformou a nossa vida.

C. Proclamação. Cada pessoa deve ter bem claro diante de si o seu alvo: apresentar a verdade de Deus. E assim de acordo com a pessoa e as circunstâncias, ter a sua maneira de explicar o evangelho, o plano da salvação. Desenvolva a sua própria maneira. Ache a maneira que melhor se aplica ao seu jeito. Viva de tal maneira que as oportunidades, as conversas e o método, vão brotando como um estilo de vida.

D. Desafio para um compromisso com Cristo. É preciso saber se a pessoa realmente entendeu a mensagem. A vida com Jesus exige uma tomada de posição. Precisamos levar a pessoa a assumir um compromisso sério com Cristo. Mostre as implicações do senhorio de Jesus.

3. Os caminhos até Cristo.

Como as pessoas chegam a Cristo? É importante saber isso, para saber como lidar com cada caso. Alguém classificou em cinco maneiras básicas. São elas:

A. A busca da verdade. Há pessoas que sempre querem saber, que fazem muitas perguntas. Nicodemos era um tipo assim. São aquelas pessoas que não dão sossego. Eles perguntam o tempo todo. É preciso paciência com essas pessoas. Precisamos de sabedoria do Senhor. Essas pessoas querem investigar tudo e só depois tomam uma decisão. Quando elas encontram a verdade, elas a abraçam para valer.

B. A busca de uma comunidade. Neste grupo estão aqueles que não têm perguntas mas sentem-se sozinhos, precisam de convivência, precisam de uma comunidade, amor, amizade. Se forem bem recebidos na igreja, se há um ambiente de cordialidade, são atraídos e vêm a conhecer Jesus. O que atrapalha essas pessoas é serem recebidas friamente. Será que a sua igreja é daquele tipo onde há panelinhas, onde o visitante entra e sai e ninguém ao menos lhe pergunta o nome? Isso me faz doer o coração, porque às vezes é uma igreja que está naquele tal esforço evangelístico e nem pergunta o nome do visitante.

C. A busca de uma causa. Paulo era assim: vivia por uma causa. Há aqueles interessados no motivo pelo qual vivemos de modo diferente; no que nos leva a ter uma vida cristã. Esta, por exemplo, é uma maneira de ganhar um marxista para Cristo. Ele está lutando por uma causa e precisa ser desafiado a lutar por uma causa maior e melhor que é Jesus Cristo. Essas pessoas são movidas pelo entusiasmo das pessoas por Jesus Cristo. Elas buscam uma causa para viver e morrer por ela.

D. O caminho do sofrimento. Às vezes Deus traz a pessoa através de uma experiência dolorosa, de sofrimento, para o conhecimento de Jesus. Jó, após sua experiência de sofrimento, declarou: "Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem" Jó 42.5.

E. Uma ação poderosa de Deus. É claro que no fim das contas, em todos os casos, há uma ação poderosa de Deus para trazer a pessoa a Jesus. Mas aqui está-se dizendo de uma intervenção visivelmente sobrenatural de Deus. Pode ser uma cura de alguém já desenganado pelos médicos ou coisa semelhante.

4. A chave para transformar a vida da igreja.

Se queremos alcançar pessoas, a vida da igreja precisa ser modificada. Primeiramente temos que parar com as desculpas. Enquanto os líderes ficam presos às desculpas: "o povo é duro", "o coração deles está fechado", "já tentamos de tudo", nada vai acontecer. Em segundo lugar, dê conteúdo ao programa da igreja. Há muitas igrejas que não têm conteúdo. Passam meia hora do culto dando avisos, relatórios, informações vazias todos os domingos. Corte essas coisas! Fui pregar numa certa igreja e o pastor gastou 45 minutos soltando sua amargura e fazendo "sermões" para a igreja. Isso precisa ser mudado para que quando chegar alguém, note que há conteúdo, que há vida nas reuniões da igreja.

5. Desenvolva meios para alcançar pessoas para Jesus.

Temos que ser criativos no desenvolvivimento de meios para alcançar pessoas para o Senhor Jesus. Pense em maneiras que possam quebrar as barreiras e atrair as pessoas para Cristo.

Conclusão

Jesus disse que temos que produzir frutos - alcançar outros. Como está a sua e a minha vida nesse sentido? Quantos contatos com pessoas que não conhecem o Senhor Jesus você tem? Quanto tempo você tem passado com pessoas que não conhecem o Senhor? Como pastores temos que equipar o povo de Deus, mas como servos de Cristo temos que ser modelos em como ganhar pessoas para Jesus.

É gostoso ver pessoas sendo salvas pelo Senhor Jesus, mas para que isso aconteça é preciso trabalho duro de nossa parte. "Quem sai andando e chorando enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes". Salmo 126.6.




rci//rv
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